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Crônicas 2019
Confira os textos que concorrem no Concurso de Crônicas da Aojustra


P no C
Por Ane Galardi (Aposentada)


Era um dia como outro qualquer e eu levava uma intimação de sentença a um estabelecimento comercial.

Ao chegar no local, fui recebida pelo sócio, me apresentei como Oficial de Justiça e ele, de pronto, falou: “Ah, é você mesma que vai me ajudar a tirar essa pica do meu cu.”

Foram alguns segundos, mas parecia uma eternidade o que passou pela minha mente: Dou voz de prisão? Chamo a polícia? Vou à farmácia comprar vaselina? Até cheguei a me olhar para ver se estava vestida corretamente e estava toda arrumadinha, até com um lencinho chique no pescoço.

Bom, aí como costuma ser do meu feitio, resolvi perguntar: Qual é o seu problema?

O problema do moço da pica entalada era ter recebido a citação inicial do processo como se fosse sua, porque o nome fantasia do estabelecimento dele era o mesmo que de um outro estabelecimento em Uberlândia que havia fechado, mas um comércio não tinha vínculo nenhum com o outro e, como ele engavetou a citação e não compareceu à audiência, o juiz o condenou na ação que ele não deveria ter feito parte. Ou seja, quem entalou aquilo nele foi o próprio!

Esclareci que ele deveria arguir nulidade no processo, juntando seu contrato social desde a constituição da empresa e alterações posteriores, alegando que não havia responsabilidade da sua empresa naquela ação.

Ele fez isso, soube depois, quando fui lhe entregar outra citação, esta certa e de um outro caso, e ele me explicou que fez o que eu disse e o juiz reconheceu que não havia responsabilidade da empresa no caso.

Bom, descobri que não sou especialista no assunto tratado, mas com um pouco de boa vontade, conhecimento jurídico e sem vaselina, consegui retirar o que o incomodava.

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Pé de Pano
Por Fábio Silva Cardoso (30ª VT de SP)


Eu tinha um mandado de penhora livre para cumprir num apartamento, mas o executado nunca estava e não retornava meu contato. Então resolvi chegar em um dia bem cedo no apartamento diligenciado e pedi para não ser anunciado na portaria. Assim, que bati na porta do apartamento eu ouvi uma voz masculina perguntando quem era. Identifiquei-me, mas a mesma voz ficou muda depois e quem abriu a porta era a esposa do executado. Expliquei a ela sobre o mandado e perguntei onde estava o executado. Ela me respondeu: "ele não está". Logo, perguntei em seguida: "então de quem era a voz masculina que me atendeu?". Ela respondeu: "a minha vida particular não te interessa". Aham tá! Era óbvio que era o executado. Adentrei no apartamento, ele continuou escondido, certifiquei que somente havia bens de médio padrão de vida e fui embora fingindo que acreditei na história do pé de pano.

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Tragicomédias de Família
Por Rogério Santos de Carvalho (54ª VT do TRT-2)

Sempre tenho dito que ser Oficial de Justiça é bom, mas tem lá seus percalços. Além da vulnerabilidade de ordem física que caminha a nosso lado o tempo todo, tem a questão da miséria humana com a qual temos de lidar quase todo o tempo. E onde mais se observa esse binômio é nas Varas de Família, onde militei por muitos anos, na Justiça Estadual do Rio de Janeiro, antes de vir para a Justiça do Trabalho.

Diz-se popularmente que se uma pessoa quer conhecer a outra que se case com ela; mas, se quiser realmente conhecê-la, separe-se dela. Há casos escabrosos, o que não é difícil imaginar, nos processos que tramitam nessas serventias, e o Oficial de Justiça nelas lotado é partícipe desses dramas, na linha de frente, combatendo no “terreno inimigo”. Poderia, aqui, enumerar vários casos dignos dos programas que passam nas TVs abertas todas as tardes, em que são esmiuçadas as ocorrências, mas eles são tão óbvios que não têm graça alguma. Então, vou apresentar dois episódios que reputo, no mínimo, curiosos. Apesar do aspecto trágico dos casos em si mesmos, apresentam uns traços de comédia. Vamos a eles:

O primeiro deu-se no bairro de Colégio, perto de Irajá, na zona norte do Rio de Janeiro. Tinha de cumprir um mandado de intimação em uma ação investigatória de paternidade, em que um cidadão deveria comparecer a um determinado local para fornecer material para o exame de DNA. Ora, estamos de acordo com o fato de que, geralmente, essas estripulias são cometidas por pessoas mais jovens. Pelo menos, era o que eu observava na maioria dos casos similares. Pois bem, cheguei à humilde casa, típica de subúrbio, com quintal, varanda e a porta da frente com aquela portinhola, em que a pessoa abre para ver quem está chamando, ou, então, dar uma sacada na movimentação da rua. Assim que estacionei o carro, em frente à casa, observei uma senhorinha que aparentava uns setenta e poucos anos, varrendo o quintal. Nesses casos de família, manda a boa técnica, baseada no bom senso, não ir logo se apresentando e falando do que se trata, mas admito que cometi um erro primário. Procurei saber junto à idosa se ali morava o Fulano. Ela, desconfiada, confirmou, e eu lhe perguntei (aí entra a gafe): “É seu filho, seu neto?”. Nisso, observo uma movimentação na varandinha, de onde saiu um senhor, também lá com seus setenta anos, que posso descrever como um típico cafajeste, tanto pela indumentária quanto pelo linguajar e comportamento: cabeleira desgrenhada, mal tingida, camisa aberta, barrigão à mostra, cheio de cordões e guias, tatuagens tipo “made in cadeia”. Andava gingando e só falava gírias típicas de malandro das antigas. Veio em minha direção, interrompendo o meu diálogo com a referida senhora, com aquele sinal característico de passar as unhas das mãos no peito, com a mão em forma de concha, como quem diz: “Sujou!”. Sinalizou para que eu descesse a rua e esperasse por ele lá embaixo. Num lugar mais “limpeza”, presumi. Desci e esperei. Ele veio em seguida, já falando: “Coé, cumpadi! Tás a fim de me fuder? Cumé que tu vai abrindo a parada assim pra minha coroa?” Percebi, então, que a senhorinha se tratava da esposa dele, e ele era o investigado, o velhinho arteiro. E continuou: “Pô, mermão, minha coroinha é foda! Ela dá geral na minha carteira, mas eu tô ligado, manja só.” Exibiu o contracheque de aposentado, onde já constavam dois descontos de pensões alimentícias, “caprichosamente” cobertos com liquid paper... E a “coroinha” não percebia a grotesca fraude, pobrezinha. E arrematou: “Eu é que dichavo a parada, maloco o flagrante... e agora vem essa mina querer me dar outra foda. Falei pra ela tirar o neném, liberei até a grana pro aborto, mas ela me deu uma volta. Pô, xará, assim a firma quebra. Num ‘guento’ mais pagar pensão não, morou? E tem mais o seguinte: quando encontrar com ela, vou dar de mão nela, tá sabendo? É muita vacilação, cumpadi”. Em seguida, virou-se para mim, passou a mão sobre meu ombro e disse, mais calmo: “Leva a mal não, doutor, é que eu sou safado mermo...”. Ainda bem que ele reconhecia: era muito safado! Recebeu a intimação, assinou e seguiu rua abaixo, gingando, todo serelepe e pimpão. Quando voltei ao carro, a senhorinha, que permanecera no mesmo lugar, perguntou-me o que eu fora fazer ali, afinal, e que não estava entendendo nada. Quando eu cometi o segundo erro, desta feita de propósito: “Pergunta a seu marido que ele lhe explica tudo direitinho. Ele tem novidades.” Ou seja, deixei a bomba e saí em disparada para não ouvir o estrondo. Às vezes, bate um sadismo, uma ruindade, um vergonhoso prazer em ver o circo pegar fogo, diante de uma sacanagem descarada como aquela.

O outro “causo” se passou no bairro de Bento Ribeiro, próximo à rua onde viveu e cresceu o Ronaldo Fenômeno. Fui cumprir ali um mandado de citação de um casal em uma ação de alimentos movida por seu filho. Estranhei porque era incomum filho adulto pedir pensão aos pais, mas o que me chamou a atenção foi uma circunstância insólita. Lia-se, na petição inicial que instruía o mandado, o texto que dizia mais ou menos assim: “Fulano de Tal, brasileiro, solteiro, autônomo, etc. etc. vem pedir alimentos a seus pais, Beltrano e Sicrana, etc, etc, porquanto não tem como prover seu próprio sustento, uma vez que não recebe o suficiente em sua única atividade remunerada, o ‘mister divinatório do jogo de búzios’ etc etc...” Assinada por um advogado particular! Como é que um sujeito constitui um advogado particular - geralmente pago - para pedir pensão a seus pais por não trabalhar, e como um advogado se presta a um papel ridículo desses? Eu sei, eu sei, é um direito constitucional de todo cidadão buscar suas pretensões em juízo, mas, cá para nós, é ridículo, para dizer o mínimo. Aí eu fiquei curioso sobre qual seria a reação dos pais do sujeito. Chegando ao endereço, pude constatar que era uma casa portuguesa, com certeza. Coberta de azulejos, hortas, plantas, quintal, tudo simples, mas muito limpo e bem cuidado. Toquei a campainha e veio me atender uma senhorinha com sotaque carregado: “Pois não, senhoire!”. Aí, por uma evidente falha no caráter de minha pessoa, botei lenha na fogueira, falando secamente: “Dona Fulana, seu filho diz que não tem como se sustentar e está pedindo pensão alimentícia à senhora e ao seu esposo”. Assim, sem mover um músculo da face, já doido para ver qual seria a reação, que, na verdade, eu já sabia. E não deu outra: “Ai, Jisus, aquele macumbaeiro e ainda por cima biado, em bez de arrumaire um travalho quere tomaire nosso dinhairinho, ó sofrimento...” E virou-se em direção ao interior da casa, berrou, chamando o esposo: “Ó, Manéli!!! benha cá oubiri o que o moço está a dizeire!!!!” Nisso, veio o Seu Manuel, ajeitando as calças e arrastando os tamancos, fitando-me com olhar curioso, e eu repeti ao portuga tudo o que falara à senhorinha, com a mesma inflexão. O luso, enfurecido, vociferou, quase aos prantos: “Beja só, senhoire, eu travalhaei a bida intaira trás dum valcão de paedaria e aquele s’fado nunca m’ajudou. Acavou por biraire um biado e macumbaeiro, matando-nos de d’sgosto, e agora, no fim da nossa bida, ainda quere nos roubaire, o sacripanta”. Desolados, aceitaram a contrafé, mas negaram-se a exarar o “ciente”, sob a alegação de que “não bamos pagaire nada, ó pá!”. Me deu uma raiva daquele sujeito... Em vez de arranjar um serviço para se sustentar, preferia explorar seus pais idosos. Ora, que fizesse daquele “mister divinatório” um bico, sei lá, ou não cobrasse por esse “dom”, fizesse por caridade ou coisa que o valha. Isso não pode ser meio de vida. “Vai travalhaire, vagabundo”. Não sei se o juiz deu provimento àquele pedido infame, mas, se deu, é uma prova cabal de que a justiça é cega mesmo.

Essas lembranças me vêm à mente e, quando as conto, numa roda de amigos ou familiares, as pessoas riem bastante. Uns até acham que é invenção minha, mas quem é do ofício sabe que é a mais pura verdade.

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O caso do Beleguim
Por Francisco Antonio Vieira de Menezes (Oficial do TJCE)


- Eu me contentarei com uma boa morte. - Era assim que anunciava o Zé Bandeira, beleguim das antigas, em comarca distante, situada em mundinho no fim das cuecas, raparigueiro inconteste, no fim da função, quando pouco ou quase nada lhe restava de ilusões públicas.

- Mas hoje o cabra não há de me escapar. - Foi o que se ouviu do Zé Bandeira, naquele dia, desde cedo.

Tanto por tanto, era que políticos afamados por escondidelas, às espreitas da sorte jurídica de não se dar de frente com o Zé Bandeira, só por uma via escusa é que não havia de ser citado ou intimado.

Mas o fato mesmo é que o Zé Bandeira, beleguim, com rapariga fixa na Cohab, recebeu mandado judicial a ser cumprido sem delongas, e sabedor da esperteza e valentia do citando, armou-se de facão e se ajeitou para diligenciar.

De sacola em punho, apinhada de determinações judiciais, imbuiu-se no intento de localizar devedor de banco, e bem sabedor da perspicácia do indigitado, atrelou-se à cachaça.

Precisava de coragem. O homem era de fama. Não ia ser qualquer banco ou ordem judicial que lhe fizesse temer, sem uma força a mais. E a maior coragem haveria de vir do oficial de justiça, com a força da amargosa.

Que lhe esperasse a Maria, a rapariga na Cohab, mas naquele dia não descansava enquanto não encostasse o sujeito na parede. Alguma coisa de importância precisava ser feita naquela sua vida de analfabeto.

Era uma aporrinhação ter que dividir sua atividade de fotógrafo com atos da justiça, mas uma pensão haveria de deixar para a mãe dos seus filhos.

Pelo menos uma pensão para quem lhe suportara tantos anos de adultério. Era isso mesmo, e às vezes o homem precisa pensar na família, mas sem esquecer da rapariga que lhe dá alento de fim de vida. Era o que pensava.

E de uma ponta da cidade à outra, foi revezando uma intimação com uma terça de cachaça, e de facão na cintura, transitou por toda a manhã à procura do devedor, sem dele ter informação de paradeiro, sempre ouvindo dizer que por ali houvera estado, mas saíra e o rasto ainda estava quente.

Foi por ali, por acolá, mas nada do inadimplente. E prestes a se enfezar de vez, sentiu que chegava a hora do pirão. Embora a contragosto, com a testa azuada, betendo-lhe a fome, decidiu ir à casa da rapariga, na Cohab.

Era seu costume diligenciar a pé ou de bicicleta. Até porque os tempos eram outros e o ganho da justiça não lhe garantia o sustento. Fotógrafo de profissão e beleguim por imposição da família, deu no meio da vida por assumir rapariga e não mais lhe importava a censura alheira.

Às favas com as convenções sociais, pois quando se está fora do círculo da moral, as maledicências vão sendo suportadas com a mesma dinâmica com que os costumes vão se sedimentando, e o desdém de um ou outro não é suficiente para alterar o que nem sequer está escondido.

Ademais, naqueles tempos de exclusiva dominação paterna, ter uma rapariga era sinônimo de autoafirmação, em que pesem as exceções.

Mas a sua Maria deu-lhe por roer os contos de réis, e a azucrinar a paciência do beleguim com exigências de primeira mulher, justamente quando estava envolvido na diligência para encontrar aquele temível devedor de banco, acionado pela justiça.

A verdade era que o cabra não passava de um embromador, um tinhoso. Precisava pensar assim, para se encher de mais vontade e não desistir da busca.

Não sabia bem do que a ordem tratava. Tinha pouca leitura. Disseram no cartório que era dívida de banco, e que achasse o homem naquele mesmo dia, pois corria um boato que estava para dar no pé.

E a rapariga lhe exigindo presença no almoço.

A casa era distante e ainda tinha caixa para mais duas, e no caminho ainda poderia dar de cara com o inadimplente.

Aprumou-se em direção à Cohab, acomodou a sacola debaixo do sovaco, ajeitou o facão na cintura e quando se chegou perto de um bar, na ponte, viu lá dentro um vulto desaparecer na direção do banheiro.

Era o cabra!

Chegou pisando forte na soleira do batente, entrou, foi até o balcão e pediu uma terça de cachaça. Enquanto era servido, perguntou em voz baixa pelo homem. Mais uma vez ouviu que por ali houvera estado, mas já se fora. Se chegasse um tantinho topava com ele.

A cachaça ferveu-lhe a cabeça. Desembainhou o facão da cintura e disse, batendo-lhe o pano no balcão:

- Encontro o Izamar, hoje, nem que seja a última coisa que faço na vida. Pois me contento com uma boa morte.

O bramido do ferro estalou por todo o bar, e do banheiro lá se veio o citando, de olhos arregalados, para dizer:

- Não seja por isso, seu Zé Bandeira. Estou à disposição da justiça. Que estranheza é essa! Dá-me cá a citação.

Feita a citação, Zé Bandeira pode ir almoçar em paz com a rapariga.


Em homenagem, in memorian, ao Oficial de Justiça João Nogueira, da comarca de Independência, no Estado do Ceará.

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Os botões da blusa
Por Wagner Ambrosio (aposentado)


Nos mais de trinta anos em que fui Oficial de Justiça na Justiça do Trabalho, passei por quase todas as situações e perrengues possíveis e imagináveis, que geralmente costumamos presenciar no cotidiano de nossa árdua e penosa função.

Já penhorei imóvel de velhinhos que nada tinham a ver com a dívida de parentes , pois foram colocados no contrato social das empresas com participação de cinco por cento da sociedade, ouvindo com paciência e indignação seus relatos e o desconforto com a situação.

Já fui recebido por homens e mulheres em trajes sumários, já fui confundido com o carteiro, já me mandaram passar mais tarde, enfim...

O caso mais inusitado ocorreu há cerca de uns dez anos, se não me falha a memória, no cumprimento de um mandado de citação de uma senhora que aparentava cerca de uns 70 anos e que, aliás, morava a dois quarteirões da minha casa.

Para variar ela tinha orientado os porteiros do prédio no sentido de informar aos Oficiais de Justiça que a procuravam de que não estava presente. Depois de várias tentativas de encontrá-la, em dias, horários e humores diferentes, um dos porteiros me informou que ela estava claramente se escondendo e que, inclusive, nem mais atendia o interfone durante o dia.

Então,  tive a brilhante idéia de diligenciar depois das 20 horas porque ainda não conhecia o porteiro da noite e porque poderia pegá-la desprevenida no intervalo da novela, sendo certo que o mandado expressamente continha a autorização para cumprimento no período noturno. 

Ali chegando não me identifiquei como Oficial, dizendo para o porteiro apenas que tinha uma encomenda para entregar para referida senhora, moradora do apartamento 71, o que era verdadeiro.

Já estávamos às vésperas do recesso de fim de ano e não queria ficar com aquele mandado pendente de solução para o ano seguinte.

E não é que ela mordeu a isca? Mas quando soube do que se tratava sua encomenda, uma entidade maligna baixou de imediato e começaram todos aqueles elogios à Justiça, aos Juízes, ao Prefeito, Governador, Presidente da República, e, evidentemente, a mim.

Era um prédio de classe média, com cerca de quinze andares. O escândalo foi de tamanha intensidade, que metade dos moradores desceu para ver o que estava acontecendo. Estava até esperando a Record e o SBT transmitirem ao vivo e em cadeia nacional.

Minha sorte - e nada acontece por acaso - foi haver várias testemunhas entre moradores e funcionários acompanhando os acontecimentos.

Depois de ler o mandado, de saber qual era o processo da vez, o valor da execução e quem era a executante, tudo acompanhado de palavrões e xingamentos, ela lembrou-se de pedir a minha identificação. Prontamente saquei  minha carteira funcional da pasta, que foi expedida em 1982,   e a apresentei. Porém a foto do documento era de um jovem de 22 anos, cara de bebê, sendo que no dia dos fatos eu já tinha mais de 50 anos.

Ela simplesmente arrancou a carteira da minha mão e desconfiou que o documento fosse falso, porque a foto não batia com a minha fisionomia atual (não que tenha mudado tanto assim depois de quase 30 anos) e não queria me devolver de forma alguma, não obstante haver pedido para que  o fizesse por várias vezes, calmamente, mas ardendo por dentro.

Nessa altura dos acontecimentos, ainda contava com a platéia de uns cinco ou seis moradores e dois funcionários que não tinham se cansado das cenas deprimentes. Estavam claramente torcendo para o circo pegar fogo e para que eu pulasse no pescoço dela.

Depois de vários pedidos para que me devolvesse a carteira, num momento de distração, resgatei suavemente o documento de suas mãos e guardei na pasta. Mas ela o segurava tão forte para defender o tesouro que tinha conquistado, que, na rapidez do movimento para mantê-lo em suas mãos, um botão de sua blusa se abriu, deixando a mostra seus lindos seios, compatíveis com os de uma senhora com mais de 70 anos.

Não preciso nem dizer o quanto este fato piorou as coisas. Começou a berrar num volume ainda mais alto,  semelhante ao rompimento de uma usina nuclear, abriu os demais botões da blusa, desfilou e gritou por um imenso corredor até o portão de entrada do prédio, sacudindo o mandado que foi elevado acima se sua cabeça para que todos o vissem e se compadecessem com sua situação de senhora humilhada : “Olha o que ele me fez ! Vejam isto! Todas as janelas estavam ocupadas por, no mínimo, duas cabeças em cada uma para apreciar as cenas dignas de um filme de baixíssima qualidade.

Em seguida, pediu uma caneta emprestada ao porteiro e começou a escrever uma longa e triste narrativa de recebimento do mandado com indignação, com os mais  profundos protestos, não obstante havê-la advertido de que nada poderia ser escrito no mandado e que quaisquer alegações poderiam ser feitas ao Juiz, mas somente através de petição. Por um instante pensei em pegar o mandado e a caneta, mas fiquei receoso de que a situação neste caso só pioraria. Mantive a calma.

Quando ela me devolveu o mandado e, finalmente, achando que estava livre para voltar para casa e jantar com minha família, entreguei a ela a cópia que ela escreveu e fiquei com a outra, momento em que ela, ainda mais furiosa, a picou em mil pedacinhos,  jogando-os para o alto, espalhando os fragmentos por toda a extensão do jardim.

Voltei para o conforto do meu lar com a clara convicção de que ia dar merda. Fui convencido pela minha esposa, que também era Oficial de Justiça, a tomar uma taça de vinho e relaxar.

Além da sorte que tive de várias pessoas haverem presenciado os fatos, o que ajudou bastante foi haver detalhado, com todo o cuidado necessário, tudo o que ocorreu na certidão de devolução do mandado. Ele nunca voltou para penhora.

Chegou o recesso de fim de ano. Na volta ao trabalho fui informado pelo Chefe de que tinha algumas surpresas. Algumas já esperadas e outras nem tanto.

Ela foi à Ouvidoria e Corregedoria do Tribunal solicitar uma representação contra mim e também à Delegacia de Polícia do bairro relatar que havia sido agredida por um Oficial de Justiça, e que, pasmem, o mesmo tinha lhe arrancado a blusa com força, deixando seus seios à mostra na frente de vizinhos e funcionários. Sindicância e inquérito policial abertos.

Depois de um longo processo de sindicância, juntada de documentos, oitiva de testemunhas, sendo que ela levou todos os porteiros do prédio, inclusive os que não estavam presentes no dia dos fatos, finalmente chegou a hora de seu depoimento.

Perguntada pelo meu advogado se ela tinha sido por mim agredida, na maior cara de pau e com a frieza de uma serpente, a mesma responde que não tinha ocorrido necessariamente uma agressão. Olhando bem nos meus olhos, eu estava sentado frente a frente ela diz: “Fui dar queixa na delegacia para que este sujeito nunca mais se atreva a me incomodar altas horas da noite”.

Os funcionários do prédio que estavam presentes na hora dos acontecimentos informaram aos encarregados de apurar os fatos que a doce senhora era habituada a agredir verbalmente outros Oficiais de Justiça, inclusive das áreas Cível e da Fazenda Pública que ali tiveram a sorte de encontrá-la e que se cansaram das vezes que tiveram que recolher mandados picados. Os demais funcionários disseram que não estavam presentes na hora dos fatos e foram dispensados para voltar ao trabalho.

Os colegas que presidiram e conduziram a sindicância concluíram que não havia motivos que resultassem em qualquer penalidade e opinaram pelo seu arquivamento. O inquérito policial também foi arquivado por falta de interesse da “vítima” em dar prosseguimento. Fiquei conhecido como o tarado do sutiã e alguns colegas cantavam aquela velha canção do Roberto Carlos quando me encontravam. “Os botões da blusa, que você usava...”

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Osvaldo Barmelli
Por Ane Galardi (aposentada)


Era uma, depois duas, três, vinte, quarenta ou mais intimações que entreguei em seu endereço, sempre em nome do Espólio de Osvaldo Barmelli * e sempre quem recebia era a empregada da residência, que trabalhava ali há mais de trinta anos, Dona Irma *.

Em uma única ocasião, das dezenas de vezes em que ali estive, conheci a viúva, uma senhora bonita, muito bem arrumada, com classe.

Claro que depois de comparecer ao local inúmeras vezes, mesmo como Oficial de Justiça, não há como não estabelecer um relacionamento mais próximo, e assim foi que a Dona Irma começou a me servir um pedaço de bolo com café, uma água gelada nos dias quentes ou um suco, já me dava beijos e desejava que Deus me acompanhasse.

Por algumas vezes ela me disse que a situação estava bem difícil para a viúva e filhos, que eram três moços bem bonitos, dois adolescentes e um adulto. Estavam perdendo tudo de herança com as ações que tinham que pagar da empresa do pai falecido.

Em um dia chuvoso, a Dona Irma me ofereceu um pedaço de bolo de laranja ainda quente, com café, e foi aí que ela me contou o que aconteceu. Disse que um dia todos os cinco familiares tomaram café da manhã, os meninos saíram para a escola, o Sr. Osvaldo estava já arrumado para o trabalho, vestindo um terno, e despediu de sua esposa dizendo que a amava muito. Ela também saiu para trabalhar. Passados alguns minutos ele voltou, avisou a Dona Irma que não estava se sentindo muito bem e que ficaria no quarto. Ela disse que ele se trocou, colocou uma bermuda, camiseta, tomou uma água e foi para o quarto. Decorridos alguns minutos ela ouviu o tiro. Quando chegou ao quarto ele já estava morto, havia cometido suicídio. Segundo ela, preparou o local com sacos plásticos, não deixando uma gota de sangue no chão ou paredes. Ela chorou e eu chorei. A empresa havia quebrado e ele não sabia como sair daquela situação.

*Nomes fictícios

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Levante-se por favor!
Por Miriam Barbosa Dias (CIAO Santos)


Essa minha diligência virou uma lenda...rs

Era o ano de  2001, eu tinha um mandado de penhora livre em bens dentro de uma residência.Várias e frustradas tentativas de atendimento no local e nada! 

Uma bela tarde, esta Oficial q vos escreve, resolve ir em outro horário: lá pelas 14 horas...

No sistema de interfonia, a pessoa diz que o executado se encontra..para eu subir! Vivaaaa! Até que enfim..

Entrando no apartamento, bem simples, eu já avaliando  mentalmente os bens ali na sala...( todo Oficial de Justiça sabe como é...rs) e sabendo que a penhora não iria cobrir a execuçâo..aguardo o executado.

Minutos depois, vem a empregada da casa...e me avisa: o senhor Fulano de Tal encontra-se dormindo...ah nâoooo! Dias e dias para essa diligência e o cara estava dormindo?

Na mesma hora eu para a empregada da casa: ah é? Jura?  Pois eu NÃO ...estou aqui trabalhando e pode pedir para ele me atender agora! Nisso a moça TENTA me avisar algo: mas eu na minha impaciência: Vamos  menina chame lá seu patrão que eu não tenho o dia todo não!

AH se eu soubesse: vem um SENHOR de cerca de uns 80 anos...sem AS DUAS pernas...em uma cadeira de rodas...com soro no braço! Eu...queria UM BURACO no meio da sala para me enfiar! Fiquei muito constrangida...maaaas já que já tinha acordado o senhor...expliquei o teor do mandado...dizendo que não faria aquela penhora pelo elevador valor e não ter bens ali suficientes...

Terminei meu serviço um pouco chocada pelo que SEM QUERER fui obrigada a fazer!

Na saída, a empregada ainda me fala: eu tentei avisar a senhora da condição dele! Pois é...ela tentou! Eu que não dei ouvidos

Em tempo: muitooos anos depois soube que este senhor havia falecido...era um ex proprietário de um bar  bem conhecido na cidade que faliu perdendo tudo, a saúde inclusive! 

Casou-se com AQUELA empregada que me atendeu E a MESMA empregada que questionou minha atitude colocou ele na rua! Sem dó nem piedade! Eu tive dó de acordar um moribundo para fazer o meu serviço...mas a moça não teve a menor compaixão de jogá-lo na rua!

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O dia em que o Oficial virou a diversão do bar
Por Maurício Passos Bahia (1ª VT Diadema)


Era uma bela tarde de um dia bem produtivo. Faltavam poucos mandados para cumprir e me deparei com uma citação a ser feita em uma rua aparentemente tranquila, mas que nunca tinha entrado. Estacionei, olhei em volta e pensei: crianças na rua, gente descontraída em um bar na frente da casa; parece tranquilo, esse mandado vai ser mamão com açúcar...

Cheguei na casa e toquei a campainha. Clima agradável, carros passando, eu olhando em volta preocupado com minha segurança quando ouvi bem longe um grito feminino: “Já vai”. 

Ufa, pensei, deve ser a reclamada, vai ser fácil e rápido. Mas fico atento ao redor, quem é oficial vai me entender.De repente olho pra aquele bar na frente da casa e vejo algumas pessoas me olhando. Parece que estavam rindo para mim, ou será rindo de mim? Querem me intimidar, concluí. Fiquei encucado.

Cadê essa mulher que disse que já vinha e não veio? Vou tocar novamente. 

Dessa vez mais atento, toquei de novo a campainha e ouvi a mesma voz respondendo: “Já vai”. Só que dessa vez achei alguma coisa estranha, a voz era muito estridente, incomum, resolvi tocar de novo e de novo: o “Já vai” se repetia, enquanto minha plateia do bar ficava ainda mais empolgada. 

Como dizia Raul, “no auge da minha agonia”, eu todo atrapalhado, cheio de pensamentos conflitantes, finalmente tive um estalo e, sem querer acreditar, concluí: era um papagaio. 

Fdp do car..., pensei eu. Que papagaio mais escroto.

Saí pro carro rindo de mim mesmo procurando um buraco para enfiar a cabeça. Sabe depois da queda o coice? Pois é, agora entendi o motivo das risadas da galera no bar, que me olhava e ria, mas ria de verdade, quase apontando o dedo pra mim. Nada de intimidador, apenas gozação; e eu morrendo de vergonha querendo sair dali o mais rápido possível. 

Retornei por volta das 19:30h e, enfim, encontrei a bendita destinatária. Lhe falei: estive aqui à tarde, ela me interrompeu e complementou “mas não tinha ninguém para te receber né, que pena.” Eu falei: tinha sim, seu papagaio me recebeu muito bem!

Percebi que ficou toda envergonhada, me pediu mil desculpas; tentou, tentou, mas no fim não conseguiu segurar a gargalhada... ficou vermelha de tanto rir e terminamos rindo juntos. 

Já tinha visto gente chorando ao receber um mandado, mas chorar de rir foi a primeira vez.

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Vida de cachorro?
Por Marcelo de Castro Costa (TJPE)


Dei esse título, “VIDA DE CACHORRO”, porque após esse dia de trabalho passei a refletir sobre os encontros e desencontros da vida. Esse fato realmente aconteceu, foi em 2003, mais precisamente no dia seguinte ao jogo entres Santa Cruz x Sport, quando este último foi campeão pernambucano. 

E foi assim: segui o roteiro de visitas previamente preparado, e me dirigi para a cidade de Camaragibe, onde efetuei uma citação. De lá, fui para o bairro da Várzea, em Recife, onde deixei uma intimação para ciência de uma sentença. Como quebra de rotina, fui recebido por um cachorro da raça poodle, que estava vestido com uma “cãomisa” do Sport, comemorando entre latidos, grunhidos e balançar de cauda, o 34º campeonato levando pelo Sport Clube do Recife, para felicidade da fiel, rubro-negra, torcida.

De lá dando continuidade ao roteiro segui para o Casarão de Roda de Fogo, na Rua Panteon, nome bonito, mas uma verdadeira favela. Conglomerados de barracos, entrecortados por becos estreitos que apenas davam passagem para uma pessoa, sem contar, que o chão do beco no sentido longitudinal, corre um esgoto a céu aberto. Andar por ali, só com as pernas abertas, ou seja, com os pés nas margens direta e esquerda da vala.

Perguntando a um e a outro, cheguei na “residência” procurada. Tratava-se de um barraco com pouco mais de 2m, todo encravados de tábuas e latas, com o teto variando em cacos de telhas de amianto, compensado e plásticos pretos, desse usados pela prefeitura, para contenção de encosta.

Fui recebido por uma Senhora, mãe da citanda, que me convidou a entrar na sua “casa”, e me acomodou em uma cadeira. O espaço era tão pequeno que mal me cabia. Em poucas palavras, expliquei o motivo da mina presença, era um mandado de suspensão de poder familiar, contra sua filha, tendo como autor o Ministério Público. A interlocutora apesar de pouco estudo, compreendeu o que se tratava, verbalizando o seguinte:

- Que morava há mais de 20 anos com seu companheiro, do qual tem uma filha adolescente com 15 anos. O companheiro é alcoólico, e quando embriagado, põe a mesma de “casa pra fora”, com ameaça de agressão.  A minha ouvinte não trabalha, vive em extrema necessidade, é cardíaca, mas mesmo assim, verbalizou que ficaria com as crianças, embora figure como requerente do abrigamento dos netos.

Pude observar, logo na entrada do barraco, uma panela sobre o fogo de lenha apoiada em tijolos, onde cozinhava feijão na água e sal, seria o almoço daquele dia. A “casa”, não tinha banheiro, sendo “chão batido”. Tem duas camas precárias uma sobre tijolos e a outra pendurada, disse que é para se proteger dos ratos que transitam pelo barraco a noite.

Realmente a higiene é zero, o barraco nem banheiro tem. As necessidades fisiológicas, são feitas em latas ou garrafas pet cortada ao meio e jogada fora, após o uso. Banho só de “cuia” com uma bacia no meio do quarto/sala, como é de chão batido a água do banho se infiltra pelo chão. Narrou a senhora! Me Deus! Que vida!

O local tem uma “boca de fumo”. Paradoxalmente a entrada da favela fica em frente a um núcleo da Polícia Militar de Pernambuco. Pude visualizar crianças na faixa de 13 a 17 anos, com mochila de papel, vendendo os chamados “dólar” de maconha, e, também crianças comprando. Percebi que estava sendo observado por alguns homens, talvez dando proteção ao “aviõezinhos”. Olhavam-me desconfiados. Corremos muitos riscos no cumprimento da nossa função.

Observou a interlocutora, que às 17:00 h, o local fica muito esquisito, onde todos fecham suas portas e não saem de casa. É comum escutar tiros, mas ninguém se assusta, já estão acostumados.

Sua filha, de outro relacionamento, mãe das crianças abrigadas, quem na verdade eu procurava, chegou de repente, estava sem ver a mãe há 4 meses, lhe pus a par da minha visita, verbalizou estar desempregada, tem um companheiro também desempregado. 

Disse que não tem ido visitar os filhos, que se encontram abrigados na FUNDAC, por não ter dinheiro para a passagem de ônibus, e nem tem como sustentá-los, é melhor ficarem onde estão!

A filha adolescente que não quer saber dos estudos, indagada sobre ir a aula, disse, nem lembrar o que é isso! Segundo a mãe ela prefere “bater” pernas pela favela, a estudar ou fazer alguma coisa produtiva.

Perguntei se tinham alguma religião ou se frequentavam alguma denominação religiosa, disseram que não. Que só acreditavam em Deus, mudando logo de assunto. Agradeci a cooperação na diligência e me pus a caminho, muito triste pelos fatos que testemunhei e sem nada fazer.

Esse foi o quadro que encontrei naquele meu dia de trabalho, não é muito diferente dos demais, mas confesso que fiquei realmente penalizado, sentindo-me impotente por não poder fazer nada por aquelas pessoas que têm a auto estima tão arrasada e se encontram no fundo do poço, sem ninguém que olhe ou interceda por elas. A quem atribuir culpa! É duro saber que milhões de brasileiros vivem assim. Para que tantas ONGS! E o Projeto Fome Zero, o que é feito dele? E a Constituição que garante aos brasileiro vida digna e moradia? O que cada um de nós enquanto cidadãos, podemos fazer para contribuir com a transformação desse quadro de carência e miséria que assolam os menos favorecidos? 

Nesse mesmo dia, fui na repartição e narrei tudo para as minhas colegas que ouviram silenciosamente algumas até choraram. 

No dia seguinte ao chegar na repartição encontrei sacos e mais sacos de roupas de todo tipo, cama, mesa, vestir etc..... Além de caixas de alimentos, foi um trabalho, mas retornei na casa daquela senhorinha, que chorava ao receber cada donativo que lhe ofertamos. Imaginem a minha e felicidade e a dela.

Votando ao cachorrinho “poodle”, aquilo que é vida! Casa, carinho, comida, roupa lavada, torcedor do Sport Clube do Recife, enfim, com seus diretos “cãonstitucionais” assegurados!!! E nós, somos ou não afortunados?

Ah! E tem gente que pensa que leva vida de cachorro. Duvido muito! Será?

Acredito que em muitos lares, faltam o cultivo de valores religiosos e fé em Deus!

Reflitam!

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Debaixo de Vara
Por Wagner Ambrosio (aposentado)


Nas Ordenações Filipinas, os oficiais de justiça podiam conduzir testemunhas e réus recalcitrantes “debaixo de vara”, isto é, à força. No antigo direito português, a vara era a insígnia dos juízes ordinários e dos juízes de fora. Era o símbolo de sua autoridade:

O  art. 95 do Código de Processo Criminal do Império, de 1832, dizia: Art. 95. As testemunhas, que não comparecerem sem motivo justificado, tendo sido citadas, serão conduzidas debaixo de vara, e sofrerão a pena de desobediência

Nos dias atuais as testemunhas que não comparecem às audiências sem motivo justificado são conduzidas para a próxima audiência por Oficiais de Justiça, que através de prévio agendamento, as buscam em suas residências e as conduzem até a sede do Juízo, geralmente nos seus próprios veículos.

Sabendo desta mordomia, alguns advogados que têm interesse em que a primeira audiência seja adiada, orientam suas testemunhas a não comparecerem e ainda esclarecem para ficarem tranquilos porque em breve (geralmente depois de uns seis meses) um Oficial irá buscá-las e as levará para serem ouvidas.

Me cansei das vezes em que testemunhas se acomodaram confortavelmente no meu carro, pediram para desligar o ar condicionado, reclamaram do trajeto escolhido e, até mesmo, pediram para trocar de estação de rádio.

Me lembro de uma testemunha em especial, um alto executivo de uma empresa multinacional que foi por mim conduzida para prestar depoimentos numa Vara do Trabalho no Fórum Rui Barbosa. 

Logo de início fui indagado do motivo pelo qual eu não estava usando terno (deve assistir muita novela da Globo), depois foi o tempo todo, confortavelmente sentado no banco de trás e lendo as principais noticias dos jornais, reclamando de tudo, e pediu para que eu baixasse o som do rádio – e olha que só ouço música boa – Eita cara chato!.

Nesta hora tive muita inveja dos colegas da época do império. Ah se eu tivesse uma Vara...

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A mulher difícil
Por Miriam Barbosa Dias (CIAO Santos)


Por volta do ano de 2003...era lotada na 1ª Vara de Santos SP quando caiu um mandado de intimação de cálculos em nome de uma pessoa física, em uma casa, na minha área de atuação.

Para cumprir esse mandado fui dia e noite e simplesmente não achava a tal mulher em casa, até que fui tarde da noite e achei a mulher em casa...que leu..releu..o mandado umas 200 vezes..levando uns 45 minutos até assinar um simples mandado.

E essa epopéia se repetiu em TODAS as fases do processo..a má vontade..os xingamentos proferidos a mim...minha genitora e mais todos impropérios  a que todo Oficial de Justiça está para lá de acostumado... e mais: a mulher teve a pachorra de me dizer que não atendia a porta pois podiam ser pedintes...rs

Uma bela noite em outro mandado para esta mesma mulher...a Oficial que vos escreve foi ao local com outro mandado...e toca a campainha, bate palma....buzina...coloca os faróis do carro na residência e NADA!

Tais procedimentos eu repeti à exaustão...e nada de encontrar ninguém.

Nós fazíamos plantões semanais nas Varas: e ouço da mesa dos oficiais ...o atendente do balcão falando com o advogado sobre o tal processo da fulana...

Eu mais que depressa levantei e fui falando para o advogado: olha doutor...IMPOSSÍVEL citar aquela mulher..já fui de dia...de manhã..de madrugada..vários dias ...e NADA! NINGUÉM me atende...

Aí o advogado me fala: não ...mas eu vim aqui pois vi seus bilhetes no jardim Oficial Miriam...para informar q a Dona Fulana de Tal foi encontrada MORTA dentro de casa há mais de 20 dias...por isso você nâo conseguia encontrá-la...bom ainda bem que ninguém veio me atender nesse período ( pensei eu).

A Secretaria ficou uns três meses tirando sarro de mim.. Eu queria citar a morta! Cruzes! 

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Auto análise
Por Ane Galardi (aposentada)


O Porteiro do edifício disse que era para eu subir ao apartamento do Sr. Eduardo. Isso não é muito comum no nosso ofício, pois as pessoas preferem descer para nos atender, mas nunca sabemos se a pessoa está com algum problema de locomoção, se é muito idoso, bom, lá fui eu.

Ao chegar ao apartamento, era uma pessoa de uns 40 anos, educado, muito bem arrumado. Entreguei a ele a citação, ele leu, assinou o recebimento, olhou para mim e disse: “Sabe de quem é a culpa disso?”

Eu, escoladíssima com a argumentação dos devedores, já pensei “sei, sim, do seu sócio canalha que te passou a perna e ficou com a melhor”, “sua ex-esposa que era sua sócia e sabia do caixa 2 e ameaçou denunciá-lo à Receita Federal”, “o empregado sem caráter que estava te roubando”...

De repente, para a minha enorme surpresa, ele disse: “a culpa é toda minha!”

Como? O sr. está bem? Alucinou? Quer que eu chame a ambulância?

E ele continuou: “olha, eu não sirvo para ser empresário, sou péssimo nisso, e agora tenho que aguentar as consequências.”

Quase dei um beijo nele, mas me contive e elogiei a sinceridade: “Parabéns, daqui para a frente, assim que o senhor se livrar dessas pendências, sua vida será ótima, pois o senhor saberá onde deve ou não pisar. Tudo dará certo!”